O zelador da Sé

À frente da Subprefeitura Sé desde fevereiro, o ex-comandante geral da PM, coronel Alvaro Camilo, defende o trabalho forte de zeladoria para estimular a frequência positiva e os negócios em uma região por onde circulam dois milhões de pessoas diariamente

Desde que assumiu a Subprefeitura Sé, há quatro meses, Coronel Alvaro Camilo tem um objetivo claro em mente, que é tornar o Centro Histórico de São Paulo mais amigável aos mais de dois milhões de cidadãos que circulam pela região todos os dias.

“As pessoas precisam saber que o Centro é delas”, resume o subprefeito, que defende o trabalho de zeladoria constante para diminuir a desordem e melhorar a segurança. “O ambiente degradado leva a mais degradação, e dá oportunidade para o crime acontecer. A Prefeitura pode trabalhar na segurança indiretamente, pois cuidando do espaço público, também inibe o crime.”

Com 33 anos de Polícia Militar no currículo, instituição na qual chegou ao cargo máximo de comandante geral, Camilo concedeu entrevista ao Diário do Comércio para detalhar o plano estratégico voltado às melhorias do Centro, e disse que pretende aperfeiçoar indicadores de atendimento ao paulistano, limpeza pública e acolhimento à população em situação de rua.

DC – As câmeras de reconhecimento facial (Smart Sampa) podem contribuir para melhorar o trabalho de zeladoria da região central?

Coronel Camilo – A resposta não é simples. Primeiro, há um desafio enorme aqui no Centro de São Paulo, que tem uma das maiores densidades populacionais do mundo. São 16,454 habitantes por quilômetro quadrado, 430 mil moradores e 2 milhões de pessoas que frequentam a região diariamente. É um problema complexo, e que não tem uma solução simples e isolada. Precisa ser algo interdisciplinar. Para cuidar de tudo, é preciso Subprefeitura, Saúde, Assistência Social, Segurança, PM, Polícia Civil… uma grande articulação. E é esse trabalho que eu vim ajudar a fazer.

Hoje há duas linhas de trabalho do prefeito Ricardo Nunes. A primeira é a do acolhimento. A cidade de São Paulo é acolhedora, e os números comprovam: 60% das pessoas em situação de rua são de fora, vindas de outras cidades, Estados e países. Entre saídas e chegadas, ficam na cidade 600 pessoas por mês. E quem, infelizmente, não têm lugar para ficar, acaba na rua. Porque a rua em São Paulo acolhe.

Ficando no Centro você tem acolhimento da Prefeitura. Mesmo em situação de rua ela dá comida, cobertor, vacina, médico, e isso pode atrair certo comodismo. Há pessoas que se acostumam porque não há regras, a mendicância tem pontos lucrativos onde se sai com dinheiro todo dia, há os auxílios federais.

Em razão disso, temos que trabalhar fortemente para que essas pessoas saiam da rua e vençam essa situação. E a forma de ajudar é oferecer um acolhimento grande, atuando na segunda linha do prefeito, que é o ordenamento da cidade. Aqui, você entra com a prevenção primária, de responsabilidade da prefeitura, e a secundária que é repressão do crime pelo serviço policial, que também faz a prevenção.

Como funciona essa prevenção primária?

Ela engloba tudo aquilo ligado principalmente ao ambiente: iluminação, lixo, caçamba irregular, camelô irregular, carro abandonado, pichação, mato alto… tudo o que acaba influenciando na segurança. A “Teoria das Janelas Quebradas” diz que o ambiente degradado leva a mais degradação. E onde há esse ambiente, há oportunidade de o crime acontecer. Então, a Prefeitura trabalha na segurança indiretamente, cuidando do espaço público.

E o papel do Smart Sampa nisso?

Voltando à prevenção primária, nesse caso, a tecnologia ajuda muito. Nós, aqui na Subprefeitura, com 250 funcionários e 3 mil terceirizados espalhados pelo Centro, não conseguimos ver tudo o que acontece. Mas quando tenho ajuda da tecnologia, vou além. Câmeras inteligentes como as do Smart Sampa, que fazem reconhecimento facial, me darão alertas sobre uma pessoa caída no chão ou correndo, e isso me permite agir.

A Central de Inteligência (que ficará no prédio dos Correios) estará ligada a todos os smartphones da guarda municipal e dos policiais. Se algum carro passa por problemas ou alguém joga entulho em local indevido, as câmeras mandarão esses alertas e, pelo georreferenciamento, será possível avisar a viatura que está mais perto.

Um dos pontos que brecou a instalação das 20 mil câmeras inteligentes foi o receio de o reconhecimento ser discriminatório…

As câmeras são um sinalizador, mas quem vai decidir o que fazer é o ser humano que está por trás. E quanto ao reconhecimento, não tem nada discriminatório. O reconhecimento é o match. O que vai bater são as características que estão no banco [de dados]. Porque elas podem ajudar a identificar também uma pessoa desaparecida. Não é só uma questão policial.

Nos interessa saber, de repente, por que tem alguém andando pela Praça da Sé, que em algum momento desembarcou na estação e está perdida, não sabe onde está. E esse trabalho das câmeras vai nos ajudar nesse sentido.

Como manter a ordem em regiões como a Cracolândia?

Nós recolhemos um volume impressionante de lixo por lá (17 toneladas por dia) porque essas pessoas ficam de tal forma debilitadas, que tudo o que acham levam para a aglomeração para trocar por drogas. O que não serve, jogam fora ali mesmo. Se olharem na região, que chamamos pelo nome técnico de “Cenas Abertas de Uso”, elas estão sempre caminhando, não param a noite inteira. Conseguimos fazer teste em 250 delas, e todas estavam com metade dos pulmões comprometida pelo crack. E ainda não sabemos o efeito do K9 (nova droga que circula por São Paulo) no organismo. Elas precisam muito de ajuda.

O problema é que algumas pessoas querem esse ambiente porque ganham em cima disso, e outras acreditam ideologicamente que têm o direito de morar na rua, mas a nossa Constituição não diz isso. O prefeito diz que rua não é endereço e barraca não é lar, e o doutor Renato Nalini (desembargador e jurista) é muito categórico: não existe direito de morar na rua, pois ela é pública e ninguém tem direito de privatizar o espaço público. Mas o principal é que esse pessoal está lá de forma indigna.

E como mudar isso?

No começo se monta a barraca bonitinho, come e joga o lixo, limpa a barraca, faz as necessidades em um restaurante. Mas passou um mês, o lixo vai pro chão, as necessidades na rua. Por isso a zeladoria é importante, porque desestimula esse tipo de ação.

A Praça da Sé já está muito melhor, tem gente lá 24 horas realizando ações de zeladoria, limpando, lavando… já chegamos a lavar 5, 6 vezes por dia, hoje já não precisa mais. A grama, a gente replantava com frequência, porque era plantar e destruíam. Hoje, se andar na Praça, você irá perceber que está permanecendo intacta, pois se sentar na grama o guarda municipal vai lá e avisa que não pode.

Nesse sentido as câmeras são importantes, porque elas serão os olhos do poder público na região central. Vão olhar pontos específicos e, o mais importante, vão permitir uma resposta rápida, e assim o poder público manda uma mensagem para a comunidade local e, principalmente, para quem está fazendo uma ação indevida, como montar barraca em horário que não pode, que vai ver que tem alguém agindo. A resposta rápida desestimula.

Recentemente a Justiça barrou ações da Subprefeitura para desmontar barracas. Como ficou essa situação?

A gente não tira pessoas e não tira barracas. O decreto (nº 59.246, de 28 de fevereiro de 2020) que determina o tratamento a essa população durante as ações de zeladoria fala que não pode ter nada que se fixe no terreno. E 99,99% desmontam suas coisas e pegam os pertences pessoais. Já as lonas, pedaço de pau, o caminhão leva. O que não se consegue levar são as coisas velhas, inservíveis, e isso a gente destrói.

Aliás, além disso tudo, eu sou obrigado por decreto a comunicar a SMADS (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) para fazer abordagem e oferecer acolhimento antes e depois da ação de zeladoria.

Tem índice mensurando a quantidade de pessoas que aceita o acolhimento?

Levando para acolhimento, é uma média de 46 por dia. Mas não é só pessoal do Centro. 70% não são.

De maneira geral, como está o trabalho para tornar o Centro um lugar mais amigável?

Temos alguns lemas aqui na Subprefeitura: atender bem sempre. Pode não resolver, mas tem de atender bem. Segundo: ver o copo mais cheio. Não é simples, mas vamos tentar resolver. Terceiro: se procurar o poder público, ou resolvo ou encaminho. Nunca é para falar ‘não é aqui’.  

Antes, o munícipe chegava na praça de atendimento vazia e perguntavam: você agendou? Era um absurdo, e a gente modificou isso. Tem de ter empatia, se colocar no lugar de quem vem aqui. Hoje, se não é demanda daqui, mas da Subprefeitura da Mooca, por exemplo, se for possível envio para eles e aviso que foi para lá. A ideia é que a coisa não pare.

É uma forma de diminuir a burocracia e a insatisfação?

Isso, diminuir a burocracia. A parte do 156 continuamos atendendo, mas acrescentei um item, que é melhoria contínua para atingir a qualidade total. Eu tenho pedido para as empresas: chegou para consertar o bueiro, mas viu que a árvore está caindo, avisa para dar continuidade.

Também adotamos um plano estratégico de ação geral, para definir prioridades: um, o que tem impacto para a população; dois: o que reverbera, ou seja, o que dá grande visibilidade. E três, que eu chamo de quick wins (vitórias rápidas), que é algo que posso fazer rápido e que também causa impacto.

O senhor pode citar algum exemplo de onde esse plano já seria aplicado?

Na Praça da Sé, na Praça do Patriarca e na Avenida Paulista, que são locais onde estamos trabalhando fortemente em zeladoria. Na Sé porque tem maior impacto, e porque quase todo mundo que vem para o Centro desce lá. Já a Paulista, além de impacto, dá visibilidade e reverberação.

Tem gente me ligando de outros lugares da cidade para agradecer por termos limpado a rua dele. Eu não mexi na rua dele, mas isso é reverberação, é um novo olhar para o espaço público.

O senhor disse anteriormente que o grande problema do Centro é o lixo. Como está a coleta na Sé?

Isso tem a ver com a Operação Centro Limpo. Estamos fazendo um trabalho com toda a comunidade e com os principais geradores. Diariamente é retirada 1,3 tonelada de lixo da Praça. Retiramos três vezes por dia, e orientamos o comércio pois agora estamos multando quem põe lixo fora do horário.

Aliás, nem as pessoas em situação de rua, nem em drogadição, produzem lixo. Elas pegam nosso lixo, do comércio, das lojas da Santa Ifigênia, e levam para perto delas para reciclar.

A Centro Limpo está a pleno vapor, e pega desde o Páteo do Colégio e Praça da Sé e vai até o Largo do Arouche. Vamos trabalhar com a eliminação quase total de resíduos sem prejudicar o trabalho de reciclagem.

A Sé é a única subprefeitura em que nós temos o serviço de Cata-Bagulho toda semana. Temos identificado pontos que são muito viciados, e estamos colocando um tipo de caçamba. Um ponto muito característico é aquele embaixo da linha do trem, nas ruas da Cantareira com Mauá (no entorno do Mercadão). Estamos reformando tudo por lá e colocando esse contêiner para que descartem ali.

Hoje, o cidadão não leva para o EcoPonto, mas paga o carroceiro para levar, que pega o dinheiro e joga o entulho na próxima esquina.

A iluminação é uma grande preocupação dos comerciantes e de quem circula pela região. Como está hoje? Há alguma expectativa de ampliar ou melhorar?

Chamei a Ilumina SP pra conversar, e ela tem nos atendido. Embora se cumpra a norma federal, quando se troca a iluminação por led ela fica com potência menor. Então a empresa está trocando a iluminação do Centro por leds com mais watts de potência – principalmente em zonas como Cracolândia e Sé.

Também temos realizado uma operação conjunta com a PM chamada Sinal Verde, para evitar furto de cabos, e pedindo para a comunidade nos comunicar onde estiver escuro, para arrumar rapidamente.

Aqui no Centro, onde há postes ornamentais e está muito escuro, pedimos para colocar varal de iluminação mesmo. O pessoal da Ilumina SP estuda países da Europa para adotar medidas que funcionaram por lá.

Hoje temos a cidade praticamente 100% led, e o Centro todinho. Falando em prevenção primária, a iluminação é o ponto mais forte para melhorar o ambiente pois afugenta a desordem e o crime. Pelo medo de ser identificado, o infrator não joga lixo nem assalta.

Gostaria de citar alguma outra ação específica para melhorar o Centro?

É bom citar operações pontuais, como a recente ação contra flanelinhas na Praça Dom José de Barros. Também estamos fazendo emparedamento de ferros-velhos e até pedi, na audiência pública do Plano Diretor, para que sejam proibidos desmanches e ferros-velhos no Centro, pelo menos no miolinho, pois podem ser usados como locais para esconder mercadorias roubadas.

Destaco também o trabalho nas Cenas Abertas de Uso (regiões como a Cracolândia), onde já fazemos limpeza duas vezes por dia. Num trecho que é limpo, como a Rua dos Gusmões, Conselheiro Nébias e Rua dos Andradas, tiramos 10, 15 toneladas de lixo diariamente.

E os eventos na região, vão ser estimulados pela Subprefeitura?

Quando cheguei na Subprefeitura falei sobre a necessidade de se trazer eventos, pois eles geram uma frequência positiva, vida para a região. Para ter segurança, tem de ter movimento, pessoas passando.

Tenho assinado para trazer eventos toda semana, em parceria com as secretarias de Turismo, de Esportes… Melhorar a frequência do Centro traz movimento, faz o comércio girar e afugenta o crime. O sadio afasta o negativo.

Quero deixar claro que não temos nada contra pessoas em situação de rua nem de drogadição no Centro. Como administrador da Subprefeitura, tenho que olhar para todos. Para esses, há muitas ações, como o Vila Reencontro, aluguel social, centro de acolhimento especial para pessoas trans. Mas temos que olhar também para o comerciante, o prestador de serviço, para o turista, para quem trabalha nos escritórios, quem só vai a um restaurante.

Dada a importância do comércio popular para o Centro, há planos para estimular esses negócios?

Claro. Sugerimos, e está sendo estudado pela Prefeitura dentro do programa Todos pelo Centro, e pela chefia da Casa Civil, a redução de ISS e IPTU para atrair comércio para a região.

Vai acontecer, mas está em estudo. Inclusive falou-se em redução ou isenção para comerciantes que têm perdido negócios em áreas como a de Cenas Abertas de Uso, pois eles estão sofrendo muito. A ideia é passar a mensagem: fiquem aí que a gente vai ajudar vocês.

Texto crédito: Karina Lignelli

IMAGEM: Prefeitura de SP/Divulgação