Com 3 mil câmeras inteligentes, Centro de SP melhora sensação de segurança

Prefeitura quer instalar mais dispositivos e reforçar policiamento até final do ano

De inseguro a mais policiado e tecnológico. É o que o pacote de segurança da Prefeitura de São Paulo tenta fazer com o Centro. Para tanto, pretende instalar 20 mil câmeras pela cidade, até o final deste ano, e reforçar o policiamento em diversas regiões, mas especialmente no Centro, visto como uma das áreas mais inseguras da capital paulista. Hoje, já há 3 mil câmeras na área central da cidade. De acordo com pesquisa do Instituto Orbis, 33% das pessoas que circulam constantemente pela região apontam a falta de segurança como maior preocupação. Encomendado pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), esse levantamento foi feito a partir de entrevistas com 502 pessoas, sendo 76% trabalhadores do Centro.

As câmeras inteligentes são a principal aposta da gestão municipal para melhorar a segurança na região e fazem parte do programa Smart Sampa, iniciado em agosto do ano passado. A meta da Prefeitura é instalar o total de 40 mil câmeras integradas em seu sistema com tecnologia de reconhecimento facial. Desse total, 20 mil terão a instalação sob a responsabilidade do município e o restante fará parte de uma segunda fase do projeto, que visa integrar câmeras de moradores e estabelecimentos privados ao sistema.

As câmeras instaladas no Centro de SP utilizam tecnologia que identifica similaridades na biometria facial, sistema atualmente empregado tanto para a identificação de criminosos quanto para encontrar pessoas desaparecidas. As câmeras também funcionam como leitores de placas, possibilitando a identificação de veículos roubados e alerta de intruso, que permite monitorar de maneira antecipada atos de vandalismo ao patrimônio público, gerando pronta resposta em flagrantes de crimes.

Em 3 meses da operação de monitoramento, sete pessoas que estavam desaparecidas foram encontradas por meio do banco de dados da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) integrado à plataforma, uma delas do Tocantins e as outras do Estado de São Paulo. Segundo o secretário Municipal de Segurança Urbana, Junior Fagotti, o Smart Sampa tem demonstrado resultados positivos e a estratégia é usar a tecnologia para otimizar as operações de segurança, reduzindo o tempo de resposta às ocorrências e aumentando a eficiência operacional da GCM (Guarda Civil Municipal). “Nosso objetivo vai além da reação aos crimes. Buscamos também a prevenção de ações ilícitas contra o patrimônio público”, afirmou Fagotti.

O subprefeito da Sé, Alvaro Batista Camilo, por sua vez, destaca a segunda fase do Smart Sampa, que inclui a integração de câmeras de empresas privadas e deve começar a partir do ano que vem. “Essas imagens de estabelecimentos privados serão enviadas para a polícia, a guarda civil metropolitana e para os prefeitos. O intuito é ajudar a monitorar o espaço urbano e antecipar questões de zeladoria e criminalidade para ajudar o cidadão de São Paulo”, disse o subprefeito.

TENDÊNCIA MUNDIAL

Marcy José Campos Verde, que há 23 anos é consultor em segurança, observa que a Prefeitura tem seguido um conceito que é tendência mundial para segurança: a prevenção do crime por meio do desenho urbano (CPTED). A ideia é utilizar conceitos de arquitetura e organização urbana para melhorar a segurança das cidades. Os pilares são: vigilância natural, reforço territorial, controle natural de acessos, manutenção e organização social. Com a integração das câmeras de moradores e ambientes privados, a gestão municipal reforça principalmente o pilar de vigilância natural. Com mais segurança, mais pessoas também devem voltar a frequentar a região, contribuindo ainda mais para esse conceito.

A situação incentiva inclusive a volta de turistas para uma região que tem diversos prédios históricos e um roteiro gastronômico que é a cara da baixa gastronomia de São Paulo. Autônomo e morador de Catanduva (SP), Flávio Domingos, 40 anos, esteve em São Paulo como turista e aprovou o sistema de segurança. “Eu me senti confortável e seguro para usar meu celular na rua, sem problemas. Também foi muito tranquilo utilizar o metrô no Centro, tanto em questão de locomoção como de segurança”, afirmou.

POLICIAMENTO

Os especialistas alertam, no entanto, que não adianta apenas instalar um grande número de câmeras, se não houver um corpo policial robusto e bem instruído para atender às demandas geradas pelas novas tecnologias. Sabendo disso, a Prefeitura tem reforçado o policiamento no Centro de São Paulo. São 2.100 agentes, que realizam o patrulhamento por meio de rondas periódicas 24 horas por dia, com 97 viaturas, 158 motos, e bases comunitárias. Com isso, é comum ser observada a presença de grupos de três agentes em vários pontos do Triângulo Histórico. As viaturas também estão rodando o local e o perímetro constantemente durante todo o dia.

Quem mais tem percebido a melhora na segurança são os comerciantes. Segundo a pesquisa do Instituto Orbit, 68% deles relataram uma percepção de melhora no policiamento na região. Para Miguel Romano, 65, dono da Casa Godinho – um dos estabelecimentos comerciais mais antigos e famosos do Centro –, a Prefeitura está fazendo um bom trabalho com relação à zeladoria, mas ainda há muito a ser feito. “Falta investir no embelezamento do Centro, torná-lo atrativo para novos públicos e mais ações que façam com que as pessoas sintam-se bem-vindas aqui”, disse.

Para incentivar também a melhora na percepção da segurança durante a noite, a administração do atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB), preparou um pacote de incentivos para os policiais que trabalham no período noturno. Parte desse pacote é o aumento da diária da atividade delegada (dos policiais militares) e da atividade complementar (dos guardas civis). Além disso, foi criado um adicional noturno de 20% para os que trabalham à noite. Lugares como a arena de shows da B3, a Casa de Francisca e outros já ficam abertos até mais tarde, aproveitando essas medidas.

VULNERÁVEIS

A região do Triângulo Histórico ainda sofre com alguns problemas crônicos, sendo o principal deles a presença de pessoas em situação vulnerável e os usuários de drogas. Para Vavá do Bixiga, o funcionário mais antigo do Bar Guanabara – tradicional estabelecimento da região –, é a única coisa que falta para melhorar de vez a situação na área central da cidade e atrair mais frequentadores. “A situação de segurança melhorou muito, mas os moradores de rua ainda afastam as pessoas”.

O subprefeito da Sé, Alvaro Camilo, disse que o trabalho com esse contingente demográfico é um dos principais desafios da administração pública e que é um processo lento, mas que a Prefeitura está empenhada em atender a esse grupo. “Durante a pandemia, houve um incremento de pessoas em situação de rua. Nosso objetivo é atender a essa população com o oferecimento de comida, cobertores, atendimento médico e vacinas”, afirmou. “Vamos continuar trabalhando forte nesse acolhimento e também dando atenção para as situações de segurança da cidade”.

Crédito texto: Victor Marques

IMAGENS: Prefeitura de SP/Divulgação