A Praça da Sé resiste. E se renova

Aumento da segurança e outras ações animam comerciantes e fazem crescer o movimento na região

Cartão-postal às vezes esquecido de São Paulo, a Praça da Sé se origina de um largo de mesmo nome. Entre a segunda metade do século 16 e início do século 17, foi construída a Igreja Matriz, substituída tempos depois. Até que, em 1911, o Poder Público derrubou tudo para construir uma “nova” praça. Dessa forma, ao longo da história a Sé foi passando por transformações profundas. Agora, ela vive mais um processo de mudanças, que começam a ser sentidas pela população e pelos comerciantes que trabalham no Centro da capital paulista.

São diversos os pontos históricos localizados na área. O famoso Marco Zero, por exemplo, no centro da praça e ponto em que os turistas costumam tirar fotografias, completará 90 anos em setembro. A atual Catedral, por sua vez, foi inaugurada em 1954, durante as comemorações do quarto centenário da cidade. Apenas na estação Sé do Metrô, inaugurada em 1978, em operação urbanística que incluiu a demolição de três prédios, circulam cerca de 170 mil pessoas por dia.

Toda essa área está inserida no pacote de ações implementadas pelo Poder Público, com o apoio dos lojistas, e que têm mudado o perfil da Praça da Sé. O subprefeito da Sé, Álvaro Batista Camilo, afirma que a área foi identificada como principal problema e prioridade da gestão municipal. “A desordem estava incrustada”, disse. Ele fala de uma área composta por oito distritos, 25 bairros, 430 mil habitantes e uma população flutuante em torno de 2 milhões de pessoas. Nesse pedaço de São Paulo, há, ainda, oito praças, cinco parques e 52 mil árvores catalogadas. Trata-se, portanto, de uma área vital da cidade. Segundo o subprefeito, as ferramentas escolhidas para combater a tal “desordem incrustada” foram planejamento, foco no cidadão, diálogo com entidades, comerciantes e empresas que atuam na região, reforço na limpeza e na segurança.

Sensação de segurança – Para a realização desse trabalho, a Sé foi dividida em 30 quadrantes, onde são realizadas ações de podas de árvores, limpeza de galerias e logradouros, recolhimento de lixo mais eficiente, educação ambiental e, sobretudo, segurança. Outro importante reforço veio da Operação Delegada, convênio entre a Prefeitura da capital e o Governo do Estado, pelo qual policiais militares podem trabalhar para o município durante suas folgas. Criado em 2009, o programa já contava com 1,2 mil policiais atuando na cidade. Em 2023, foram acrescentadas mais 1,2 mil vagas, todas direcionadas ao Centro. “Queremos proporcionar um ambiente mais sadio a todos os que trabalham e circulam pela Sé”, disse Camilo. Para esse público, a sensação de segurança já começou a mudar.

Proprietária da loja Nelson das Bolsas, Maria Edila Gonçalves é uma dessas pessoas. “A gente tinha medo até de sair da loja. Hoje, sentimos claramente que a situação está melhorando. De uns 6 meses para cá, está muito legal”, disse. Localizada na esquina da Sé com a Rua Direita, a loja de Maria Edila é uma das mais antigas da região: funciona há 50 anos. A empresária conta que cansou de ver assaltos diários em frente ao seu estabelecimento, o que, segundo ela, não acontece mais. Com isso, Maria Edila afirma que já sente um aumento em torno de 10% nas vendas da sua loja, na comparação com o ano passado.

Ali perto, na Livraria da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a gerente do estabelecimento, Maria Antonia Pavan de Santa Cruz, também aponta melhoras. “O movimento tinha caído muito e agora está crescendo paulatinamente”, afirmou. Ela conta que alguns clientes telefonam para fazer encomendas e perguntam se podem receber o produto em casa, pois muitos ainda têm medo de retirar os pedidos. “Eu sempre respondo que agora o trajeto pode ser feito com segurança”, disse Maria Antonia.

Ainda há problemas a serem solucionados na região, mas algo parece estar mudando. “Hoje, eu consigo atravessar a Praça da Sé tranquilo. A gente vê o policiamento ostensivo e se sente seguro”, afirmou o economista Marcel Solimeo, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Aos 87 anos, Solimeo completou recentemente seis décadas trabalhando na ACSP, que fica no Centro, e, portanto, frequentando a região diariamente. “Coisas como iluminação, limpeza e segurança são essenciais para que as pessoas comecem a voltar para o Centro. É preciso adensar o Centro, trazendo a população para cá.”

Mais fiéis e turistas na Catedral da Sé – Inaugurada há 70 anos, após 41 anos de obras, a Catedral da Sé reflete as mudanças da região. As ações implementadas na área já chegaram à igreja, com seus 111 metros de comprimento e 46 de largura, e 65 metros de altura até o cume da cúpula – o equivalente a um prédio de 22 andares. Na frente da igreja e na lateral, há sempre uma base fixa da Polícia Militar, além de veículos da Guarda Civil Municipal. Esse incremento da segurança, entre outras medidas, já mostra resultados. De acordo com dados da Arquidiocese, nos últimos 12 meses, o número de pessoas na missa dominical registrou uma alta de 100%, subindo de 200 para 400 fiéis. Já o movimento de turistas na igreja teve alta mais tímida, estimada entre 7% e 8%, chegando a cerca de 1.500 pessoas por mês. Os números são mais um reflexo do aumento de pessoas circulando pelo Centro e, consequentemente, pela região da Sé.

Crédito texto: Vitor Nuzzi

IMAGEM: Prefeitura/Divulgação